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Médico paraibano lidera pesquisa com pele de tilápia no tratamento de queimados

Pesquisa entra agora na terceira fase com mais 130 pacientes sendo tratados
Fábio Barbosa  |  28/05/2017 08:50
noticia Médico paraibano lidera pesquisa com pele de tilápia no tratamento de queimados
noticia Médico paraibano lidera pesquisa com pele de tilápia no tratamento de queimados

Uma pesquisa pioneira no mundo está sendo desenvolvida pelo paraibano Marcelo Borges em queimaduras. Ele utiliza a pele da tilápia para isolar a ferida do meio externo, o que diminui o tempo de duração do tratamento em até quatro dias, além de dar conforto ao paciente pela quase total inexistência de dor. Nessa entrevista ao Correio, Marcelo Borges contou como teve a ideia de desenvolver o trabalho e revelou que ela já foi publicada em mídias de 25 países e traduzida em sete idiomas, além de ter os vídeos nas redes sociais visualizados por mais de 130 milhões de pessoas.

A pesquisa que é totalmente desenvolvida no Brasil entra agora na terceira fase com mais 130 pacientes sendo tratados.

-O que faz a pele da tilápia ser importante no tratamento de queimaduras?

- Em nossos estudos laboratoriais ficou comprovado que a pele da tilápia tem duas vezes mais a quantidade de colágeno tipo I que a pele humana. Esse colágeno (tipo I) exerce papel importantíssimo no processo de cicatrização das feridas. Essa quantidade em dobro justifica o fato de que com o uso das peles da tilápia na pesquisa, as queimaduras têm cicatrizado mais rapidamente (de 2 a 4 dias a menos quando comparadas com o grupo controle que utiliza pomada à base de prata).

- O tratamento será oferecido ao SUS (Sistema Único de Saúde)?

- Ao final da pesquisa, comprovada a eficácia do tratamento que até agora estamos observando, iremos dar entrada no pedido de registro do produto junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Uma vez autorizado, o curativo com a pele da tilápia será oferecido ao Ministério da Saúde, com a proposta para ser padronizado no Sistema Único de Saúde (SUS).

- A que processo a pele de tilápia é submetido para estar em condições de ser aplicada ao tratamento?

- Para a pele ser considerada esterilizada, idealizamos combinar : Clorexidina que é um antisséptico + Glicerol (que é um álcool) em altas concentrações, que funciona como um agente descontaminante + Radiação ionizante (Gamma Cobalto 60) na dosagem de 30 KGy, que inativa a ação dos vírus. Como resultado final obtivemos uma pele esterilizada e segura para uso em humanos, comprovada através de vários testes laboratoriais. A pele fica descontaminada em relação a bactérias, fungos e vírus.

-Todo o processo é feito no Brasil?

- Isso tudo é feito no Brasil, entre o Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Medicamentos, vinculado a Universidade Federal do Ceará, sob a coordenação do professor Odorico Moraes – essa etapa em Fortaleza e no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da USP aos cuidados da doutora Mônica Mathor. É em São Paulo  que a pele recebe a radiação, onde ela é  considerada completamente esterilizada e segura para aplicação em humanos  no tratamento das queimaduras.

- O tratamento é exclusivo para os casos de queimaduras ou pode ser aplicado em qualquer grande lesão?

- Também, embora – como nós estamos concluindo a pesquisa científica – ela está direcionada para queimaduras. Mas nós daqui a alguns meses vamos começar estudos em outras feridas, sobretudo as feridas crônicas, como aquelas clássicas conhecidas como feridas do pé do diabético.

- O que levou o senhor a escolher a pele da tilápia para a pesquisa?

- Em novembro de 2011, quando li num jornal local, no Recife uma matéria cujo título era: “Couro da tilápia vira artesanato”. A matéria comentava que o couro da tilápia estava sendo utilizado para confecção de peças íntimas femininas, como bolsas, sapatos e cintos. Daí me veio o primeiro questionamento: se a pele da tilápia tem resistência e delicadeza ao mesmo tempo, para ser utilizada na confecção de acessórios femininos delicados, por que não teria a mesma resistência e delicadeza para substituir a pela humana temporariamente no tratamento das queimaduras? Além desse fato teve a coincidência de um mês depois eu estar inaugurando o Banco de Pele aqui do Instituto Materno-Infantil de Pernambuco – Imipe - e no Banco de Pele aprendi a esterilizar a pele humana com segurança. E a partir desse conhecimento comecei a idealizar como fazer as adaptações necessárias desse processo de esterilização da pele humana para transferi-las para o processo de esterilização da pele da tilápia.

- Nenhum componente, digamos histórico?

- Um outro fator que me levou a pensar na pele da tilápia, foi que, pela primeira vez, no mundo, alguém estaria pensando num animal de ambiente aquático para produzir um curativo biológico de origem animal.

- Como era antes?

- Até então, a Ciência havia pesquisado alternativas em animais do ambiente terrestre como cão, gato, rato, galinha e porco. O porco, diga-se de passagem, resiste até os dias de hoje e é comercializado – a pele industrializada em países do primeiro mundo, sobretudo nos Estados Unidos.

- E no Brasil?

- No Brasil, nunca houve condição para utilização da pele do porco, em função dos seus altos custos de comercialização. Um terceiro fator foi o desejo de experimentar uma alternativa de curativo biológico de animal de outro ambiente, que não fosse o terrestre, como pesquisado por décadas e décadas.

- Então há um pioneirismo na pesquisa?

- Pioneira no mundo.

- Que resultados lhe animam a continuar a pesquisa e tentar patentear o produto?

- Vamos tentar patentear e registrar junto a Anvisa. Já temos catalogado tratamento com 70 pacientes com queimadura de segundo grau, tanto segundo grau superficial como segundo grau profundo, em áreas do corpo acometendo até 20% de superfície queimada. Nesse primeiro grupo, obtivemos os seguintes resultados: redução do tempo de tratamento de dois a quatro dias, quando comparado ao grupo controle – grupo de pacientes que fazemos estudos comparativos, utilizando um creme tradicional à base da prata.

- Esse é o tratamento padrão?

- É o convencional. Tratamento standard preconizado pelo Sistema Único de Saúde. Além disso, tivemos uma redução no número de troca de curativos e também a dispensa, quase total, de analgésicos ou anestésicos durante os procedimentos para troca de curativos.

Correio Online

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