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Traficante diz que tinha US$ 3,4 mi em casa para sustentar família caso fosse preso

O brasileiro Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca, driblou a polícia por 30 anos. Era o traficante mais procurado da América do Sul
Fábio Barbosa  |  09/07/2017 07:18
noticia  Traficante diz que tinha US$ 3,4 mi em casa para sustentar família caso fosse preso
noticia  Traficante diz que tinha US$ 3,4 mi em casa para sustentar família caso fosse preso

No início da tarde de 18 de fevereiro um Toyota Hilux branco de placa QBY-7977 foi abordado em um posto da Polícia Rodoviária Estadual em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. No banco do motorista estava um senhor de cabelo e barba escuros, de 57 anos  – que aparentava dez anos menos. Na carteira de habilitação constava o nome de Vitor Luis de Moraes. A polícia tirou uma cópia do documento e o liberou. Era apenas uma inspeção rotineira, mas acendeu o alerta nos investigadores da Polícia Federal. Quase cinco meses depois, a abordagem levou à prisão do traficante há mais tempo procurado pela PF brasileira e pela Interpol na América do Sul, um retrato da porosidade das fronteiras brasileiras.

O mesmo Hilux branco fora visto tempos antes num endereço monitorado pela polícia, uma casa de alto padrão no condomínio Parque dos Príncipes, em Osasco, São Paulo, cercado por seguranças armados. O local estava sob vigília da inteligência da PF de Londrina, que investigava uma quadrilha de tráfico internacional de drogas que abastecia as principais organizações criminosas do Brasil: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). O líder do grupo era o traficante Luiz Carlos da Rocha, conhecido como Cabeça Branca, condenado há mais de 50 anos de prisão, que estava havia 30 anos na mira das autoridades, sem nunca ter sido localizado e preso.

Ao deparar com a foto de Vitor Luis de Moraes na carteira de habilitação, a PF viu semelhanças entre o insuspeito senhor e o traficante que ganhou seu apelido pelos cabelos grisalhos. Cientes de que o criminoso poderia ter passado por três cirurgias plásticas e tingido as madeixas, os investigadores de Londrina encaminharam ao Instituto Nacional de Criminalística fotos de Vitor e uma foto de 2005 de Cabeça Branca, que constava nos arquivos da PF e da Interpol. O laudo, concluído em 10 de abril, confirmou que Vitor Moraes e Cabeça Branca eram a mesma pessoa.

A PF então intensificou o monitoramento do traficante, de seus familiares e comparsas. Chegou assim a outros imóveis do grupo, além da casa em Osasco. A busca culminou na prisão do traficante às 11h30 da manhã de sábado, dia 1º, em uma padaria na cidade de Sorriso, em Mato Grosso, município de 82 mil habitantes a 398 quilômetros de Cuiabá. Cabeça Branca morava ali com sua mais recente parceira, Fernanda Benedito da Silva, de 25 anos. No dia seguinte, ele prestou seu primeiro depoimento à PF, obtido com exclusividade por ÉPOCA.

Cabeça Branca admitiu à PF que a cocaína que vendia era produzida na Bolívia. Disse que mandava seus comparsas esconderem a droga em fazendas em Mato Grosso e, posteriormente, em depósitos em Cotia e Embu das Artes, na Grande São Paulo. Falou por seis horas ao delegado responsável pela operação, Elvis Aparecido, na Superintendência da PF em Curitiba, sem a presença de seu advogado, que não foi localizado no dia.

No depoimento, o traficante preservou os nomes do PCC e do CV, organizações que os investigadores já sabem que eram abastecidas por ele. Afirmou que só responderia a questões “relacionadas a fatos sobre sua pessoa”. De acordo com as investigações, Cabeça Branca era o responsável pela entrada no Brasil de cerca de 5 toneladas de cocaína por mês para abastecer as facções. Parte da droga era enviada ao exterior, via Porto de Santos. Para a PF, a quadrilha de Cabeça Branca tem tentáculos no Paraguai, Bolívia, Panamá, Estados Unidos, Itália, Espanha, Oriente Médio, África e Rússia.

Cabeça Branca admitiu à PF ser dono de todos os itens encontrados na residência de Osasco, “especialmente a grande quantia em dinheiro (US$ 3,4 milhões), para que, em qualquer situação que ele pudesse ser preso, aquela quantia em dinheiro seria utilizada para o sustento da família e arcar com custos de advogado”, disse. Além do dinheiro vivo, havia 26 garrafas de vinhos, incluindo o celebrado Château Petrus, avaliado em mais de US$ 10 mil a garrafa. O traficante ainda elencou cinco motoristas que transportavam a droga até São Paulo – pagava R$ 20 mil a cada um deles, por “empreitada”. Também alugava galpões a R$ 7 mil para armazenar a mercadoria ilegal.

Além do nome Vitor Moraes, Cabeça Branca usava o pseudônimo Luiz Henrique, pelo qual era conhecido na casa em Osasco. Sobre os documentos que conseguiu forjar, o traficante contou que tudo foi feito na Praça da Sé, no centro de São Paulo. Disse que não saberia identificar quem os falsificou. “A exigência do interrogado era para que fossem fornecidos documentos ‘quentes’ e a gama completa de documentos, por exemplo, RG, CPF e até mesmo passaporte”, diz o depoimento. Em relação à CNH, afirmou que ela foi feita “oficialmente” pelo Detran após ele mesmo levar a documentação falsa no órgão, que não percebeu as fraudes. Por razões de segurança, Cabeça Branca foi transferido para a Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, uma unidade de segurança máxima.

Época

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