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Após meio milênio, DNA identifica doença que dizimou 15 milhões de astecas

Exames encontraram a bactéria salmonela nos corpos de indígenas mortos
Fábio Barbosa  |  17/01/2018 19:16
noticia Após meio milênio, DNA identifica doença que dizimou 15 milhões de astecas
noticia Após meio milênio, DNA identifica doença que dizimou 15 milhões de astecas

Quando Hernán Cortés chegou ao México, em 1519, existiam cerca de 30 milhões de indígenas na região mesoamericana. No fim daquele século restavam menos de dois milhões. As guerras provocaram muitas mortes, mas foram epidemias trazidas pelos invasores que dizimaram a população. Em 1545, o povo da nação Asteca começou a adoecer com febres altas, dores de cabeça e sangramento nos olhos, boca e nariz. A morte vinha em três ou quatro dias. A epidemia ficou conhecida entre os nativos como “cocoliztli”, mas somente agora, quase meio século depois, o culpado foi identificado: a salmonela.

Relatos históricos indicam que a “cocoliztli” — “pestilência”, na língua asteca — matou cerca de 15 milhões de astecas, cerca de 80% da população total. Por anos, cientistas tentaram identificar a doença causadora da epidemia, a segunda maior da história da Humanidade, atrás apenas da peste negra, que matou 25 milhões de pessoas apenas na Europa Ocidental no século XIV.

— A “cocoliztli” de 1545-50 foi uma das muitas epidemias que afetaram o México após a chegada dos europeus, mas foi especificamente a segunda de três epidemias a mais devastadora — explicou Ashild Vagene, da Universidade de Tuebingen, na Alemanha, à AFP. — A causa dessa epidemia tem sido debatida por mais de um século por historiadores e agora nós temos como fornecer evidência direta pelo uso do DNA para resolver esta antiga questão.

Os colonizadores europeus trouxeram para a América novas doenças, como varíola, sarampo, tifo e caxumba. Sem defesas, os organismos dos indígenas sucumbiam rapidamente. Duas décadas antes da “cocoliztli” de 1545, uma epidemia de sarampo matou entre 5 milhões e 8 milhões de indígenas, logo após o desembarque dos europeus. Uma segunda epidemia, entre 1576 e 1578, matou metade da população restante, estimada em apenas 4 milhões.

“Nas cidades e grandes vilas, valas foram escavadas. E da manhã ao pôr-do-Sol, os sacerdotes nada fazem além de carregar cadáveres e jogá-los nas valas”, escreveu o cronista Frei Juan de Torquemada.

Até mesmo na época, médicos apontavam que os sintomas não se encaixavam com os das doenças mais conhecidas, como sarampo e malária. Para responder a essa questão centenária, arqueólogos analisaram 29 corpos enterrados no sítio de Yucundaa-Teposcolula, em Oaxaca, no México. Datações por carbono indicam que os indígenas morreram na época da epidemia, e em seus dentes guardaram provas do patógeno culpado. Exames de DNA indicaram a presença da bactéria Salmonella enterica, Paratyphi C.

— Nós testamos para todas as bactérias patógenas e vírus com dados genéticos disponíveis — disse Alexander Herbig, também da Tuebingen, coautor da pesquisa publicada na revista “ Nature Ecology and Evolution”. — E a Salmonella enterica foi o único germe detectado.

Este subtipo da salmonela provoca febres entéricas, dentre as quais a febre tifoide é a mais conhecida. Hoje, esta variedade da salmonela é muito rara, e os poucos casos de infecção são registrados na Ásia e na África, não nas Américas.

Agora, resta saber se a salmonela foi trazida para o Novo Mundo pelos conquistadores espanhois, como outras doenças. A tese dos pesquisadores é que a bactéria tenha viajado com animais domésticos trazidos pelos europeus e se espalhado entre os indígenas por meio de água e alimentos contaminados.

— Com os dados que temos não podemos saber geneticamente se a salmonela veio da Europa ou já existia no México antes da chegada dos europeus — pontuou Ashild, ao “El País”. — O que sabemos é que esta bactéria já existia na Europa muito tempo antes da epidemia de “cocoliztli”.

O Globo

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