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A polêmica do cancelamento de palavras

Criado-mudo, não. O termo correto é mesa de cabeceira. Criado-mudo é um termo racista e surgiu para chamar escravos que ficavam parados ao lado da cama.

O trecho entre aspas aparece no site da Amazon quando um consumidor pesquisa aquele pequeno móvel quebra-galho, no qual você deixa seus óculos, livro, celular ou copo d'água antes de dormir.

A intenção é ótima. Mas, infelizmente, acaba dando corda para uma informação falsa. Porque não há racismo na expressão "criado-mudo". Vamos aos fatos: o nome desse objeto é uma adaptação do termo americano dumbwaiter, um pequeno elevador que transporta comida entre os andares de um imóvel, inventado no século 19 ("dumb” é um termo para "mudo”; "waiter”, "mordomo”).

Na Alemanha, que não usou mão de obra escravizada em seu território nos tempos coloniais, também há a expressão "criado-mudo” (stummer diener) - é a palavra deles para "cabide de piso”.

O termo pode até ser de mau gosto, pois equipara pessoas a objetos. Mas não tem a ver com escravidão. A ideia de que se trata de um termo racista tem origem apócrifa e circula há alguns anos nas redes sociais.  De tanto ser repetida, começou a ganhar status de verdade. Só que não é.

Outra desinformação na mesma linha, que chegou a ser publicada em uma cartilha da Defensoria Pública da Bahia, se refere à expressão "nas coxas". Ela remeteria a telhas "feitas de argila, moldadas nas coxas de pessoas escravizadas".

Não há registro de tal prática, nem no Brasil colonial, nem em lugar algum do planeta. Tampouco ela faria sentido.

A tese é facilmente desmentível por uma fartura de argumentos”, escreveu Sérgio Rodrigues, autor de Viva a Língua Brasileira, na Folha de S.Paulo.

O anatômico (só gigantes teriam coxas do tamanho das telhas coloniais brasileiras), o funcional (telhas moldadas assim teriam tamanhos e formas tão variados que inviabilizariam um telhado decente) e o econômico (por que ter produtividade tão baixa se era fácil providenciar moldes de madeira?).

“Não há uma etimologia precisa para a expressão

nas coxas” - talvez daí a livre interpretação surrealista relacionando-a à escravidão. O mais provável, porém, é que seja simplesmente uma expressão para

trabalho malfeito” advinda do fato de que um trabalho bem-feito é realizado numa mesa, e não sobre as pernas.

A polêmica sobre o cancelamento de palavras voltou aos holofotes no final de 2021, mais especificamente no Dia da Consciência Negra (20 de novembro). Foi quando a agência de checagem de notícias Lupa publicou uma lista de expressões tidas como racistas. A agência reproduziu diversos erros ali.

Além de "nas coxas" e "criado-mudo", fazia parte da relação o termo "doméstica". De acordo com o texto, a palavra teria vindo de "domesticada”, já que os escravos "eram vistos como animais”. Não é verdade. O termo foi registrado como adjetivo pela primeira vez no fim do século 14, 200 anos antes de as primeiras populações escravizadas terem sido trazidas para o Brasil. E vem do latim domus, que significa "casa", a mesma matriz para "voo doméstico" e "economia doméstica".




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